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Bem-estar corporativo ainda não virou gestão: o que mostram os dados de 230 empresas

Juliana Maffia
Oct 20, 2026

Bem-estar corporativo: muita oferta, pouca gestão

Quase todas as empresas já oferecem benefícios de bem-estar, mas poucas fazem a gestão de bem-estar corporativo de forma estruturada. Essa foi a principal conclusão do EXchange Meet Up de 15 de outubro, que apresentou os dados do Prêmio RH de Bem-Estar by TotalPass, criado em parceria com a Pin People.

Entre as 230 empresas analisadas, de 92,8% a 99,6% oferecem ao menos um benefício em cada dimensão de bem-estar. Ao mesmo tempo, só 17% têm campanhas de bem-estar com metas associadas.

Se você trabalha no RH, provavelmente conhece a cena: o portfólio de benefícios cresce, o e-mail de lançamento sai e a adesão continua baixa. Este artigo reúne os dados apresentados por Marcelo Alves, da frente de People Science da Pin People Consulting, e as provocações do painel com Mariana Clark (psicóloga) e Rita Ruas (Head of Customer Success da TotalPass), mediado por Carolina Baraldi, líder da Pin People Consulting.

Sobre o estudo

O Prêmio RH de Bem-Estar nasceu de uma provocação da TotalPass. A Pin People entrou como parceira técnica, construindo a metodologia, viabilizando a coleta e conduzindo a análise dos dados.

  • Base: 230 empresas concluíram todo o processo, de mais de 500 inscritas.
  • Porte: de 100 a mais de 10 mil pessoas colaboradoras.
  • Diversidade: mais de 30 segmentos de mercado.
  • Quem respondeu: representantes do RH de cada empresa, e não as pessoas colaboradoras.

Por isso, os dados são autodeclarados e devem ser lidos como um retrato de sinais do mercado, não como um censo.

O que é gestão de bem-estar corporativo

Definição em destaque: gestão de bem-estar corporativo é a capacidade organizacional de planejar, sustentar, medir e melhorar a experiência das pessoas, combinando benefícios, cultura, governança e indicadores. Ela vai além de oferecer um portfólio de benefícios e exige responsáveis, orçamento, metas e escuta contínua.

O estudo parte de uma visão biopsicossocial: saúde e qualidade de vida são influenciadas por fatores físicos, emocionais, sociais e organizacionais. Para cobrir esse leque, a análise olhou para quatro frentes, do que a empresa oferece até o impacto que ela consegue comprovar.

Frente O que avalia Principais dados Leitura
Benefícios ofertados Variedade, alcance e adesão do portfólio De 92,8% (social) a 99,6% (físico) oferecem ao menos um benefício por dimensão Oferta robusta
Cultura de bem-estar Práticas que incentivam o cuidado no dia a dia 54,1% têm diretrizes formais de equilíbrio de vida; 53,2% têm escuta organizacional estruturada Cenário dividido ao meio
Governança institucional Responsáveis, processos e políticas 39,9% não têm política formal de bem-estar; 35,1% monitoram ações de forma reativa ou improvisada Acompanhamento pouco regular
Indicadores de impacto Métricas que conectam bem-estar à experiência 49,8% têm rotatividade voluntária abaixo de 10%; 32,5% têm absenteísmo abaixo de 3% Resultados diluídos

A leitura da tabela de cima para baixo conta a história do estudo: quanto mais se avança da oferta para o resultado, mais a robustez se perde. O próximo nível, segundo Marcelo, não está em ampliar iniciativas, mas em construir um sistema de gestão que respeite as necessidades das pessoas e as possibilidades da organização.

Os 6 insights do Prêmio RH de Bem-Estar

O cruzamento das respostas resultou em seis insights centrais. A ordem é didática, não de prioridade: na prática, um insight sustenta o outro.

1. Oferta ampla com adesão ainda em construção

O desafio não está em oferecer mais benefícios, mas em criar condições reais de uso. Incentivo à atividade física, plano de saúde e odontológico, seguro de vida ou funerário e incentivo à formação continuada aparecem em 77% ou mais das empresas.

O problema está no caminho entre a oferta e o uso. Os principais obstáculos apontados pelo RH foram:

  1. Falta de tempo: 43,5%, por sobrecarga de trabalho ou demandas da vida pessoal.
  2. Desconhecimento dos benefícios: 35,7%.
  3. Baixa relevância percebida: 33,9%.
  4. Estigma: 31,7%, sobretudo em saúde mental.

Sobre o estigma, Marcelo usou uma comparação simples: assim como vamos ao médico cuidar do coração, também precisamos cuidar da cabeça. Sem enfrentar essa barreira, a carteira de benefícios corre o risco de ficar parada, existindo só para dizer que existe.

2. Bem-estar precisa ir além do individual

O suporte individual, como assistência psicológica e psiquiátrica, já é bem presente nas empresas. O que falta é garantir que o ambiente ao redor também fortaleça o bem-estar.

  • Desenho do trabalho: só 23,5% têm políticas de desconexão estruturadas, como bloqueio de horários, limite de reuniões ou dias sem reunião.
  • Vínculos e conexões: 34,3% mantêm grupos estruturados de afinidade, espaços que formam uma rede de apoio entre pares.

3. Existem responsáveis, mas a liderança é o ponto de virada

A maioria das empresas já tem alguém responsável pelo tema, mas essa responsabilidade está concentrada nas camadas operacional e tática.

Nível do responsável por bem-estar Camada % das empresas
Analista ou similar Operacional 26,8%
Coordenadoria ou similar Tático/gerencial 38,5%
Diretoria ou similar Estratégico 17,3%
C-Level ou similar Executivo 6,5%

O dado mais sensível vem da liderança direta. Só 10,8% das empresas têm líderes que assumem o protagonismo das ações de bem-estar, e 44,6% não oferecem treinamento sobre o tema para lideranças, ou oferecem apenas de forma opcional ou pontual. Sem essa capilaridade, o bem-estar fica preso ao RH.

4. Riscos psicossociais: a gestão avançou, mas o cenário é dividido

A agenda regulatória da NR-1 tende a acelerar o tema, mas hoje as empresas estão praticamente divididas ao meio.

  • Prevenção contínua: 51,5% já integram os riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), com ações planejadas e periódicas.
  • Reatividade ou ausência: 48,5% atuam de forma pontual, com registro básico, ou não mapeiam esses riscos.

Para Marcelo, o volume de empresas reativas é relevante num momento em que o tema já pode ser fiscalizado. Ele pondera que as orientações recebidas pelo mercado foram confusas, o que ajuda a explicar o ritmo desigual.

5. Valores precisam gerar impacto prático e mensurável

Do lado positivo, 75,7% das empresas mencionam bem-estar nos valores oficiais. Entre elas, 38% tratam o bem-estar como valor central e transversal, com critérios de decisão e comportamentos esperados explícitos.

O risco é esse posicionamento ficar só no discurso. As principais lacunas são:

  • 34,6% não têm cronograma de iniciativas de bem-estar;
  • 39,0% não têm políticas formais de bem-estar;
  • 40,3% não monitoram processos ou fazem isso de forma reativa.

6. Escuta exige ação, e ação exige escuta

A escuta organizacional só se torna efetiva quando se conecta a decisão e intervenção. O estudo mostra que a primeira etapa desse ciclo está mais madura do que as seguintes.

Escutar:53% têm rituais de escuta com devolutivas estruturadas e planos de ação

Analisar: 28% monitoram processos internos com indicadores e cadência definida

Agir: 31% não têm orçamento dedicado ao tema; 17% têm campanhas com metas associadas

Sem indicadores padronizados, falta comparabilidade para entender o que mudou e por quê. Sem orçamento intencional, as campanhas acontecem sem meta nem registro de impacto.

Diferenciais de mercado: o que ainda poucas empresas fazem

Algumas práticas têm alto valor estratégico, mas ainda não estão presentes na maioria das empresas participantes. Por isso, funcionam como diferenciais.

Frente Prática Presença na base Por que importa
Benefícios Bloqueio de reuniões, pausas estruturadas ou jornada reduzida em dias específicos 23,5% Integra o descanso à rotina, com previsibilidade
Cultura Protagonismo das lideranças nas práticas de bem-estar 10,8% Aproxima o tema do dia a dia das equipes
Cultura Grupos estruturados de afinidade 34,3% Reforça laços sociais e trocas entre pares
Governança Responsável por bem-estar em nível estratégico ou executivo 23,8% Leva o tema para além do RH
Governança Comitês de bem-estar com iniciativas e metas 22,1% Soma visão executiva e construção democrática
Indicadores Monitoramento com indicadores, metas e cadência 27,7% Comprova que as ações funcionam
Indicadores eNPS na zona de excelência 32,9% Sustenta o cenário positivo no longo prazo

O que as empresas mais maduras fazem diferente

Maturidade não é fazer tudo ao mesmo tempo, e sim criar consistência: entender prioridades, agir com método e ajustar a rota. As empresas finalistas compartilham quatro pilares:

  1. Transversalidade: o tema não fica preso ao RH e permeia áreas e níveis da organização.
  2. Liderança envolvida: líderes preparados e corresponsáveis pelo bem-estar das equipes.
  3. Metas, orçamento e monitoramento: o bem-estar faz parte da governança, como qualquer outro tema estratégico.
  4. Escuta recorrente e uso de dados: decisões apoiadas em ciclos contínuos de escuta.

Para o conjunto das empresas, o estudo aponta cinco movimentos que impulsionam a gestão de bem-estar:

  1. Reduzir barreiras de adesão, atacando falta de tempo e desconhecimento com comunicação ativa.
  2. Fortalecer lideranças, que passam de incentivadoras a corresponsáveis.
  3. Transformar escuta em ação, com retorno às pessoas e planos ligados a orçamento.
  4. Formalizar governança, com políticas, processos, responsáveis e métricas.
  5. Conectar bem-estar a indicadores, como absenteísmo e rotatividade voluntária e, com o tempo, até resultados financeiros.

Aplicação prática para o RH e a liderança: o que o painel ensinou

O painel partiu de uma pergunta direta: o que falta para a agenda de bem-estar virar um sistema de gestão? Participaram Rita Ruas, Head de Customer Success da TotalPass, cujo time acompanha a jornada de 50 mil empresas [#44], e Mariana Clark, psicóloga que apoiou a construção da metodologia do prêmio. Mariana passou 18 anos no RH, especializou-se em perdas, luto e prevenção do adoecimento mental e é colunista do Valor Econômico há 3 anos.

As duas concordaram em um ponto: o acesso a benefícios de bem-estar já é uma boa prática consolidada. Medir se ele gera valor para as pessoas e impacto para o negócio ainda é realidade de poucas empresas.

Comunicação, relevância e condições: o tripé da adesão

Rita resumiu o que separa empresas de alta e baixa adesão com pacotes de benefícios parecidos.

  1. Comunicação que chega na ponta. Mandar um e-mail de lançamento não garante que as pessoas receberam a mensagem. Na Suzano, uma das vencedoras do prêmio, operadores que trabalham na floresta não abrem e-mail; a solução foi um adesivo nas marmitas que eles recebem todos os dias.
  2. Relevância conectada à estratégia. O benefício rende mais quando entra na jornada da NR-1, no acompanhamento de grupos mais vulneráveis e nas ações da área médica e de segurança do trabalho.
  3. Condições reais de uso. Se a equipe trabalha 10 horas por dia, nenhum benefício resolve sozinho. Opções flexíveis, como treinos em casa de 20 a 30 minutos, ajudam quem tem jornadas irregulares.

Por que as pessoas não buscam apoio psicológico

Para Mariana, o benefício pode estar disponível e, mesmo assim, a pessoa não se sentir segura para usá-lo. Ela apontou três raízes:

  • Cultura do "aguenta tudo": aprendemos a valorizar quem resolve tudo e não demonstra fragilidade. Ainda há insegurança sobre confidencialidade e sobre o que acontece com quem pede ajuda.
  • Exigência de felicidade: uma positividade que pode ser tóxica e incompatível com a condição humana.
  • Baixo autoconhecimento: quem não sabe o que é bom para si fica perdido diante de um cardápio extenso de benefícios.

Ela defende uma responsabilidade compartilhada, numa relação adulta: a empresa faz a sua parte e convida o indivíduo a fazer a dele. A escuta organizacional é o que permite trazer as pessoas para essa conversa.

Vínculos como fator de proteção

Quando alguém atravessa uma fase difícil, compartilhar a experiência reduz o isolamento e gera validação. Para Mariana, esses vínculos são a base para que a pessoa se sinta bem para usar qualquer benefício, desde que os espaços sejam genuínos e seguros, a ponto de alguém conseguir dizer que não está bem e repactuar uma entrega.

Rita mostrou como desafios coletivos fortalecem esses laços:

  • Bradesco: o programa Total Check propôs 90 dias de check-ins. De 86 mil pessoas colaboradoras, 22 mil participaram, 350 treinaram os 90 dias sem parar e foram registrados mais de 500 mil check-ins.
  • Vibra Energia: com o patrocínio do CEO, Ernesto Pousada, a empresa criou um programa de preparação para a Maratona do Rio, com centenas de pessoas correndo.
  • Pin People: a própria equipe vive uma competição saudável em trios para incentivar atividade física.

O recado: com mais ou menos recursos, seja via RH ou via liderança, é possível transformar bem-estar em cultura compartilhada.

Liderança: sustentar a tensão entre cuidado e resultado

Mariana fez um alerta: estamos colocando tudo na conta da liderança, que também se sente pressionada por todos os lados. O papel do líder, para ela, é de responsabilidade, não de culpa.

O maior desafio está em sustentar a tensão entre cuidado e resultado. Em algum momento, por 2 ou 3 meses do ano, parte do time não vai performar por questões individuais ou coletivas. O líder precisa acolher e, ao mesmo tempo, ajudar a pessoa a retomar sua funcionalidade. Cuidar não significa ser permissivo nem perder autoridade.

Rita complementou com outra pergunta: quem cuida de quem cuida? Um líder que se sente cuidado tem mais chance de cascatear esse cuidado. Por isso, ela questiona se 1 hora de treinamento online é mais efetiva do que levar a liderança para viver uma prática esportiva ou uma boa conversa sobre dilemas de liderança. A visão conversa com o Panorama de EX da Pin People, que aponta o bem-estar das lideranças como um dos pontos críticos da experiência do colaborador.

Que indicadores levar para a diretoria

Para mostrar que bem-estar é gestão, e não custo, as convidadas defenderam o cruzamento de dados. Mariana sugere conectar, por exemplo, áreas com mais denúncias e áreas com mais afastamentos, trazendo para a conversa saberes da área médica, do jurídico e do RH. A palavra-chave, para ela, é coerência: não adianta um valor na parede se a pesquisa de clima mostra outra realidade.

Rita lembrou que o indicador certo depende do que é valioso para cada organização:

Contexto da empresa Indicador que conversa com a diretoria
Mercado competitivo por talentos eNPS e percepção do benefício no processo seletivo
Serviços essenciais e fábricas Absenteísmo, presenteísmo e afastamentos
Empresas com estudos mais maduros Sinistralidade e gastos médicos
Ganhos rápidos Economia com consultas de psicologia fora do convênio

Ela também comentou sobre a busca constante por adesão: às vezes, 10% a 15% da organização muito engajada já gera um impacto que paga o investimento.

Erros comuns a evitar

  • Confundir lançamento com comunicação: um e-mail enviado não é uma mensagem recebida.
  • Medir só a adesão: o uso é importante, mas o impacto é o que sustenta o investimento.
  • Cobrar a liderança sem cuidar dela: líderes sem preparo e sem suporte não conseguem cascatear o cuidado.
  • Declarar sem estruturar: bem-estar nos valores precisa de política, cronograma e monitoramento.
  • Tratar a NR-1 como burocracia: a maturidade aparece quando a exigência vira prevenção contínua.

Como resumiu a mensagem final do encontro: o bem-estar precisa ser ouvido, medido e gerido continuamente.

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Perguntas frequentes sobre gestão de bem-estar corporativo

O que é o Prêmio RH de Bem-Estar by TotalPass? É uma premiação da TotalPass, com a Pin People como parceira técnica, que avalia as práticas de bem-estar das empresas em quatro frentes: benefícios, cultura, governança e indicadores. A primeira edição analisou 230 empresas.

Qual é a principal barreira para a adesão aos benefícios de bem-estar? A falta de tempo, apontada por 43,5% das empresas. Em seguida vêm desconhecimento dos benefícios, baixa relevância percebida e estigma.

As empresas já estão preparadas para gerir riscos psicossociais? O cenário é dividido: 51,5% fazem prevenção contínua integrada ao PGR, enquanto 48,5% ainda atuam de forma reativa ou não mapeiam esses riscos.

Como transformar bem-estar em um sistema de gestão? Reduzindo barreiras de adesão, fortalecendo lideranças, transformando escuta em ação, formalizando a governança e conectando bem-estar a indicadores de negócio.

Que indicadores mostram o valor do bem-estar para a diretoria? Depende do contexto da empresa. eNPS e atratividade no recrutamento pesam em mercados competitivos por talentos; absenteísmo, presenteísmo e afastamentos pesam em operações essenciais.

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